A denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) utiliza a delação premiada de Mauro Cid para reforçar a acusação de tentativa de golpe de Estado. No entanto, omite trechos dos depoimentos do tenente-coronel que contradizem a narrativa apresentada, segundo o Jornal Folha de S. Paulo.
Nos depoimentos dados entre novembro e dezembro de 2024, Cid afirmou não saber se Bolsonaro teve conhecimento do plano “Punhal Verde Amarelo”, que previa a morte do ministro Alexandre de Moraes e do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Essa versão foi ignorada na denúncia assinada pelo procurador-geral Paulo Gonet, que sustenta que o ex-presidente teria autorizado a trama.
Outro ponto suprimido refere-se ao monitoramento de Moraes. A PGR cita a delação de Cid para afirmar que Bolsonaro ordenou a vigilância do ministro, mas não inclui o trecho em que o ex-ajudante de ordens diz que o monitoramento ocorreu por um motivo pessoal, e não no contexto da suposta operação de assassinato.
A Procuradoria também omite a versão de Cid sobre uma reunião de militares em 28 de novembro de 2022. Segundo ele, o encontro não envolveu planejamento de golpe, mas foi apenas um “bate-papo de bar” entre oficiais descontentes com a derrota eleitoral.
A denúncia ainda se baseia em mensagens de Cid que sugeririam movimentações golpistas após a posse de Lula. No entanto, o militar afirmou que as mensagens foram interpretadas de forma equivocada pela Polícia Federal e que Bolsonaro não planejou os ataques de 8 de janeiro de 2023.
Tanto a investigação da PF quanto a denúncia contra o general Estevam Theófilo, chefe do Comando de Operações Terrestres do Exército, se fundamentam na delação de Cid. O militar, porém, disse acreditar que Theófilo seguiria as ordens do Alto Comando e não colocaria tropas nas ruas sem autorização.

