Manaus (AM) – Na noite de 29 de setembro de 2019, o engenheiro Flávio Rodrigues dos Santos foi assassinado em circunstâncias envoltas em mistério e controvérsias. Seis anos depois, o crime ainda não teve uma sentença definitiva que satisfaça familiares e parte da sociedade local. A mãe de Flávio sofreu abalos graves de saúde em decorrência do trauma, e a ausência dele — então provedor da casa — deixou sequelas emocionais e financeiras na família.
Dinâmica do crime

Segundo as investigações da época, a morte ocorreu durante uma festa realizada na casa de Alejandro Molina Valeiko, que é enteado do ex-prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto.
Relatos apontam que, já no evento, teria havido uma discussão. Em seguida, Flávio foi esfaqueado, e o corpo foi removido e lançado em um terreno no bairro Tarumã — próximo à zona oeste da cidade — sendo encontrado no dia seguinte.
Na ocasião, foram presos suspeitos como Alejandro Valeiko, Elizeu da Paz (na época sargento da PM), entre outros indivíduos apontados por participação no homicídio e em tentativas de obstrução das investigações.
Apesar dessas prisões, o processo não chegou a uma conclusão definitiva por muitos anos, deixando a família clamando por celeridade e responsabilidade.
Morre um dos réus: Elizeu da Paz

Um dos réus mais destacados do processo, Elizeu da Paz de Souza, foi baleado na cabeça em novembro de 2024, durante uma corrida por aplicativo em Manaus, e acabou falecendo no hospital.
As circunstâncias desse atentado ao réu reacenderam debates sobre risco entre os envolvidos no processo, possíveis retaliações e a fragilidade da segurança em casos de grande repercussão política.
Prisão de Mayc Parede e outras movimentações recentes

Em novembro de 2024, foi cumprido mandado de prisão preventiva contra Mayc Vinícius Teixeira Parede, apontado como autor do homicídio de Elizeu da Paz, bem como réu no processo da morte de Flávio Rodrigues.
Mayc já havia sido denunciado pelo Ministério Público (MP-AM) juntamente com Elizeu, Alejandro Valeiko e outros, no contexto do homicídio de Flávio Rodrigues.
Com a morte de Elizeu, a prisão de Mayc, e outros réus ainda soltos, o desfecho do “caso Flávio” segue incerto — e a família pressiona para que se faça justiça antes que mais capítulos terminem na impunidade.
O clamor da família e o impacto humano

Desde o dia do crime, a mãe de Flávio, Maria Ireci, afirma que sua saúde se debilitou fortemente pelo sofrimento contínuo. Em entrevistas, ela já disse: “Meu coração está dilacerado”.
A irmã de Flávio também falou publicamente: com a demora no encerramento do inquérito e na definição de culpados, a família sente que não conseguiu viver o luto com paz, porque as versões dos fatos mudam com frequência.
Do ponto de vista econômico, a ausência de Flávio — que era o principal provedor — provocou reorganizações no sustento familiar, já que dependiam dele para despesas de moradia e projetos pessoais.
Lacunas e desafios para a apuração

Morosidade da Justiça e instabilidade dos laudos Os familiares já reclamaram da falta de conclusividade nos laudos periciais e da demora para que o inquérito fosse remetido à Justiça. Conexão política e possível favorecimento Como o crime ocorreu em casa ligada à família de um político influente (o ex-prefeito Arthur Virgílio Neto) e envolveu o enteado dele, surgem suspeitas de que parte do aparato institucional poderia sofrer pressões externas ou tentativas de manipulação. Segurança de réus e risco de novos crimes O assassinato de Elizeu da Paz e a prisão de Mayc mostram que envolvidos no caso podem estar inseridos em dinâmicas perigosas, dificultando o andamento do processo sem interferência externa ou violência. Perdas de testemunhas ou réus mortos A morte — violenta — de réus pode impedir que eles sejam julgados e oferecer à defesa recurso contra nulidades processuais. No caso de Elizeu, como era réu principal, sua morte implica no redimensionamento do processo. Dificuldade em reunir provas e garantir imparcialidade Considerando o tempo decorrido, pode haver perda ou deterioração de provas, fragilidade de memória de testemunhas e riscos de contaminação do processo.
Perspectivas e o que ainda pode ser feito
Requalificação dos autos: com a prisão de Mayc e a morte de Elizeu, o Ministério Público e a Justiça estadual devem reorganizar as denúncias e garantir que os réus remanescentes possam ser julgados sem atrasos excessivos. Proteção de testemunhas e réus: garantir segurança para aqueles que ainda precisem depor ou se apresentar em juízo, evitando novos episódios de violência. Transparência no processo: maior divulgação pública de relatórios, laudos e andamento processual pode ajudar na pressão social para que o caso não seja esquecido. Participação da sociedade civil: mobilizações, comissões de direitos humanos e imprensa local podem manter o tema vivo no debate público. Judicialização especializada e fiscalização externa: órgãos como promotorias de direitos humanos estaduais e federais, corregedorias do judiciário e tribunais de contas podem monitorar irregularidades ou omissões.
Andamentos e decisões recentes
Prisão de Mayc Parede (nov/2024) Em 5 de novembro de 2024, a Polícia Civil cumpriu mandado de prisão preventiva contra Mayc Vinícius Teixeira Parede, apontado como autor do homicídio do sargento Elizeu da Paz. Tanto Mayc quanto Elizeu já eram réus no processo da morte de Flávio. Negativa de liberdade provisória para réus Em março de 2021, o juiz da 1ª Vara do Tribunal do Júri de Manaus negou pedido de liberdade provisória para Mayc Parede no processo que investiga a morte de Flávio. Também em 2021, o juiz negou modificação da prisão preventiva de Elizeu da Paz, citando a “gravidade do crime” e a “violência exacerbada” como fatores que impedem sua soltura. Audiência de instrução e interrogatórios (meados de 2021) A 1ª Vara do Júri pautou audiência de instrução para os dias 27, 28 e 29 de julho de 2021, para ouvir testemunhas e interrogatório dos réus. Durante essas audiências, testemunhas de acusação e de defesa foram ouvidas e foram feitos interrogatórios dos réus. Sentença de “pronúncia” e réus “não pronunciados” Em 22 de dezembro de 2021, o juiz Celso de Paula, que assumiu o caso, divulgou a sentença de pronúncia. Nela, alguns réus foram encaminhados para julgamento popular (julgamento por júri), enquanto outros — incluindo Alejandro Valeiko, Paola Valeiko e José Edivandro — não foram pronunciados (ou seja, não seriam levados ao júri nessa sentença).
A Promotoria recorreu dessa decisão para que esses réus também fossem pronunciados. A defesa de Alejandro Valeiko sustenta que o laudo pericial demonstrou que o engenheiro foi morto no local onde o corpo foi encontrado, e não na casa onde a festa foi realizada — tese usada para pleitear sua inocência ou afastamento de culpa.
Suspensão do processo por decisão do STF Em 28 de setembro de 2021, foi divulgada notícia de que o processo de instrução do “Caso Flávio” foi suspenso por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), em razão de questionamentos da defesa sobre conduta do Ministério Público (MP). A defesa alegou que o MP havia agido de forma ilegal no processo, desrespeitando ordens judiciais, o que motivou a paralisação da instrução.

Seis anos depois da tragédia, o “Caso Flávio” permanece como uma ferida aberta na cidade de Manaus. A morte violenta de um profissional jovem e provedor de seu lar, em meio a suspeitas políticas e episódios de retaliação, evidencia os desafios do sistema de Justiça em casos sensíveis. Para a mãe, a dor ainda é presente e seu pedido de Justiça segue intenso. Para o Estado, permanece o dever moral e jurídico de provar, sem dúvidas, quem mandou e quem executou — e garantir que, mesmo entre réus mortos ou vivos, nenhum responsável escape ao escrutínio da lei.

